ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 565 - 24/11/2009
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“Conversas impossíveis” se multiplicam nos blogs e redes sociais
Postado por Carlos Castilho em 31/10/2009 às 4:59:18 PM
 
 

No dia 27 de outubro aconteceram 5.296 contatos online entre palestinos e israelenses, 7.965 mil diálogos entre sérvios e albaneses, 7.231 conversas entre indianos e paquistaneses e 14.586 mensagens trocadas entre gregos e turcos, dois povos que vivem às turras desde 1922.

 

É o que registrou a página Peace on Facebook, organizada pela rede social Facebook em pareceria com o Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT) para promover na internet contatos bilaterais apartidários entre protagonistas de conflitos políticos, religiosos e étnicos ao redor do mundo.

 

Os diálogos em curso na página Peace On Facebook acontecem numa rede social que tem cerca de 300 milhões de usuários em todo o planeta e podem ser acompanhados por qualquer pessoa. Além dos conflitos mencionados no primeiro parágrafo, o site registra ainda os contatos entre os seguidores de duas vertentes antagônicas do islamismo, os sunitas e xiitas, entre católicos e protestantes na Irlanda e até entre adversários políticos como os democratas e republicanos, nos Estados Unidos.

 

Cada uma destas situações de conflito é monitorada a partir de mensagens deixadas em páginas da rede Facebook. O projeto monta um gráfico da evolução diária dos contatos em cada conflito ao mesmo tempo em que promove uma pesquisa, também diária, sobre as expectativas de paz no mundo, com consultas a 500 usuários da rede social em 12 países diferentes.

 

A pesquisa sobre expectativa de paz mostrou que os norte-americanos são os mais pessimistas, pois só 8,5%  acreditam na possibilidade de todas as guerras serem eliminadas dentro dos próximos 50 anos. Os mais otimistas, acredite quem quiser, são os e os israelenses (29,3%) e os colombianos (39%).

 

Os diálogos impossíveis também acontecem na blogofera, o universo virtual dos weblogs, como mostrou Charles Cameron, da página Smart Mobs no texto em que conta o caso de John Robb um especialista inglês em antiguerrilha que conversa via seu blog Global Guerrillas com o líder do principal grupo rebelde da Nigéria, responsável por danos avaliados em 50 bilhões de dólares em conseqüência de atentados contra instalações petrolíferas de empresas européias.

 

O potencial da Web para integrar horizontal e descentralizadamente comunidades sociais em conflito mútuo está tornando cada vez mais freqüentes e intensos os chamados  diálogos impossíveis pela internet, como o que está sendo travado via blog por uma especialista australiana em antiterrorismo e um dos principais artífices da estratégia militar do Taliban, a guerrilha afegã que é hoje a principal dor de cabeça dos Estados Unidos no mundo.

 

Este universo pouco conhecido das iniciativas de paz pela internet ainda está carregado de muitas dúvidas e suspeitas, uma herança das paranóias da extinta Guerra Fria. O projeto Peace on Facebook, por exemplo, é criticado pelo fato de que seu parceiro no MIT é um departamento que responde pelo intrigante nome de Instituto Tecnológico da Persuasão, que produz uma página chamada Peace Dot.

 

A conversa virtual entre a australiana Leah Farrall e o afegão Mustafá Hamid, mais conhecido no terrorismo internacional como Abu al-Masri, é parte da preparação de uma tese de doutorado pela australiana, especialista em inteligência antiguerilheira e autora do blog All Things Counter Terrorism, o que gerou especulações sobre o seu real objetivo.

 

Inicialmente foram levantadas dúvida sobre a autenticidade dos comentários do líder afegão, mas depois surgiram comprovações independentes de que eles são realmente verídicos. O que ainda não está claro é se Leah e al-Masri estão genuinamente buscando uma aproximação ou se tudo não passa de um exercício de contra-inteligência.

 

As interrogações ainda são muitas neste processo de aproximação de adversários via internet. Mas alguns especialistas na Web, como o professor e escritor norte-americano Howard Rheingold, acreditam que a rede pode estar começando a reproduzir parte daquilo que  o filósofo francês Teillard de Chardin classificou como uma noosfera,um espaço de idéias em estado puro, não contaminado pelas paixões.
Comentários (2)
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Denys  Cruz, Analista (Manaus/AM)
Enviado em 3/11/2009 às 1:41:14 AM

Excelente artigo. Parabéns pelo trabalho.
Fabio  de Oliveira Ribeiro, advogado (Osasco/SP)
Enviado em 2/11/2009 às 10:59:26 AM

Você está valorizando demais estes contatos que menciona ou desprezando a importância maior os outros contatos. A guerra é fruto dos contatos privilegiados entre comandantes e comandados (em ambos os lados), entre militares e fornecedores de armamentos, entre políticos e militares, entre jornalistas (que ajudam a criar a representação pública do inimigo) e políticos e militares. No Rio de Janeiro os contatos comerciais entre a classe média e alta (consumidora de drogas) e a classe baixa (que vende drogas nos morros) fornece aos traficantes os meios de continuar a explorar seu negócio. Os contatos entre traficantes e policiais corruptos e políticos ainda mais corrompidos fomenta a ineficiência e a brutalidade pública no combate ao tráfico. Você quer falar de contatos que fomentam a paz? Então tem que falar daqueles que permitem à guerra prevalecer e ser permanente.
Comentário do Autor
Oi Fábio,
Estava sentindo falta dos teus comentários. Fabio, não dá para falar de tudo ao mesmo tempo, num post de pouco mais de 40 linhas. Você tem razão, não se pode falar de paz sem falar também nos fatores que alimentam conflitos. Mas este é o grande drama de quem tenta colocar as coisas em perspectiva. Sempre está faltando uma coisa. Sempre terminamos o texto e sentimos que algo faltou. Não é desculpa não, é uma constatação à qual eu ainda não me acostumei e acho que nunca vou aceitar passivamente. Mas vamos lá, eu selecionei falar de algumas "conversas impossíveis" para mostrar que é vi[ável sim tentar algum tipo de aproximação entre opostos, porque a Web oferece um ambiente especifico. Até agora só podiamos conversar com desafetos em ambientes públicos onde a pressão social impõe regras sobre as quais não temos muito controle. Mas a Web, em especial os blogs permitem conversas "olho no olho", onde a carga emocional das divergências pode ser minimizada. Não é uma receita geral, mas é uma possibilidade. Foi mais ou menos isto que tentei transmitir no post, ressalvando que é dificil contextualizar plenamente as circuntâncias em que ocorrem estas conversas. Fabio, um grande abraço e não desapareça. Castilho
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Carlos Castilho
* Ex-repórter - revista Fatos & Fotos
* Ex-redator internacional - JB
* Ex-editor internacional - Opinião
* Ex-editor telejornais - TV Globo
* Ex-chefe do escritório da TV GLobo em Londres
* Ex-redator - Cadernos do Terceiro  do Terceiro Mundo;
* Ex-correspondente latino americano  do jornal Público/Lisboa
* Ex-editor internacional do JB;
* Ex-editor associado do The World Paper/ Boston;
* Ex-editor latino-americano da agência IPS - Costa Rica;
* Ex-consultor de advocacy na mídia para a União Européia;
* Professor de Jornalismo Online , Faculdades ASSESC (Florianópolis);
* Professor de Projetos Multimídia (pós-graduação latu senso) no CESUSC / Florianópolis;
* Professor de Jornalismo Online (curso a distância) no Knight Center, Universidade do Texas; 
* Autor do capítulo Webjornalismo no livro No Próximo Bloco - Editora PUC/Rio -2005.
* Autor do prefácio e tradução do livro Jornalismo 2.0, de Mark Briggs, publicado pelo Centro Knight, da Universidade do Texas.
* Mestre em Mídia e Conhecimento pelo EGC/UFSC. 
-Reside em Florianópolis / SC
email ccastilho@gmail.com


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